Textes

O traço, as formas, o movimento, o ritmo, a cor, a pincelada, o cair, o solto, o aparente objecto subjectivo, o espaço sem lugar, o tempo sem tempo, a transformação são, talvez, estas as palavras que mais caracterizam a obra de Maria de Morais no sentido de um trabalho, claramente, pictórico e interior. As suas diferentes séries apontam para uma pintura onde a representação passa pela resposta estética própria da pintura: expressividade cromática e expressividade formal. No entanto, Maria de Morais contextualiza, ainda, todo o sentido e toda a expressividade formal e conceptual do seu trabalho numa nítida junção entre uma obra, visivelmente, pictórica e um universo interior (eu), que transporta para as telas onde, aparentemente, nos poderá dar uma leitura paradoxal de imagens, ilusoriamente, reais e objectivas. Ao observarmos a sua obra lembramo-nos de uma série de movimentos artísticos que perpassaram a história da arte. Mas, de imediato compreendemos o seu distanciamento de um passado artístico da história da arte e conseguimo-nos centrar numa procura de uma linguagem artística própria que se centra num mundo pessoal (interior/eu) que, cuidadosamente, conduz e aplica através de um domínio pictórico.
O espectador ao analisar o corpo total da série “Hyacinthe, or the red series” poderá observar o que entender, a aplicação pessoal que Maria de Morais leva para esta sua série permite leituras alargadas de acordo com o próprio universo sensitivo do observador, sendo que a fuga à transmutação do interior da autora será difícil de o observador ultrapassar, uma vez que, subtilmente, a mesma altera a cor, a massa corpórea, e o cair do representado. Neste sentido, são várias as associações cognitivas e emocionais que podemos sentir ao observarmos o trabalho desenvolvido por Maria de Morais.
Na série “Narcissus, or the survival series” observamos uma metamorfose do objecto representado, a densidade cromática e a densidade da espessura da pincelada vai variando, acabando esta série numa tela onde, igualmente, presenciamos uma alteração da densidade formal do representado mostrando-nos quase que o silêncio de uma libertação de algo ausente ao espectador, mas presente à autora.
Nesta obra de Maria de Morais as manifestações formais e de conteúdo não nos parecem evidentes, equivalentes a A, a B ou a C., a título de exemplo o vermelho não terá que nos indicar ou sinalizar, perigo, morte ou amor, porque não indicar-nos procura ou libertação?

Fátima Marques Pereira
Porto, 11 de Maio de 2008.

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